Segunda, 10 Setembro 2018 18:29

Centro Cultural Teresa D’Ávila apresenta exposição "Esgarçamentos"

O Centro Cultural Teresa D’Ávila abriu, no dia 05 de setembro de 2018, a exposição ESGARÇAMENTOS do artista visual Gilberto Vançan, que ficará até o dia 29 de setembro para a visitação, no Espaço de exposições do UNIFATEA.

O ponto de partida para o processo criativo do artista foi o objet trouvé ouready-made que, em 1913 apareceu, no campo da arte, com os objetos de Duchamp. Com os ready-made/objet trouvé, o artista deslocou o objeto manufaturado do seu contexto original transportando-o para o universo da arte, dando um poder quase “sobrenatural” – tudo que disser que é arte, será. Ao artista cabe a ideia.

Objet trouvé no francês significa, “objeto encontrado” e o readymade no inglês, “ feito” ou “manufaturado”, percebemos que na tradução de uma língua para outra há diferença, então escolhemos a definição do francês, que aproxima do processo criativo de Gilberto Vançan.

Pensando na concepção do objeto encontrado em objet trouvé, identificamos o potencial artístico que o objeto passa do banal para o estético, pois o objeto estava perdido ou mesmo descartado, ao ser encontrado a sua função artística é acionada. Cabe ao artista achar e recolocar o objeto em cena, recriando-o.

           Em Esgarçamentos, o artista nos convida a entrar neste jogo de perder e achar do objet trouvé.

          O Desvão, o artista encontrou na rua um pedaço de aglomerado e com o recorte a laser fez o seu autorretrato. Outro autorretrato, o Móbile, lasca de madeira coletada de uma poda de árvore, no centro de São Paulo, que numa brincadeira do “boneco de palito” tão comum de ser desenhado, o artista coloca a figura humana como tal, na ponta de um suposto penhasco,  nos revelando o seu medo de altura. O medo sempre presente em nossas vidas que nos mobiliza mas também nos impulsionam.

         Em José (placas de compensado recolhidas no lixo de uma copiadora); Hic et nunc, aqui e agora em latim (cobertor recolhido na rua); Verde Mata (bacia plástica com tintas endurecidas) e Planeta (pedaço de MDF revestido e com ferrugem impressa na placa), o artista não faz nenhuma intervenção, apenas com seu olhar estético, identificou os elementos da linguagem artistica como: textura, cores, formas, manchas, linhas, volume.

         Com agrupamento de diversos materiais que conhecemos na arte comoassemblage, a obra Bric à brac, reúne um galho, a lateral da cadeira e uma  luva de borracha.

          Obras como Carúncula (peneira com marcas de muito uso com crosta de resina endurecida); Múltipla e Absoluto (cacho de palmeira) recebem  interferências, na primeira, o agrupamento de materiais que transformam o objeto num olho, o detalhe está no remendo lateral que sugere a carúncula dos olhos; na segunda obra, o cacho de palmeira recebe a tinta branca, temos um emaralhado de linhas, uma rede com diversas ligações e no mesmo objeto, um círculo que remete a uma lupa que aponta para o particular, duas forças em uma única peça.

           O Espumante (molde em gesso, imitando bolhas) surpreende-nos com a revelação do artista de ter observado a espuma de sua urina no vaso sanitário. O encantamento pela texturas se dá em qualquer circunstância. Já o Preto Acetinado é uma reflexão sobre as sobras do incêndio ocorrido no ateliê do artista, um tampo de mesa queimado, que também é carvão, material que Vançan utiliza para desenhar e agora é fonte de superação do acidente para se tornar obra. O artista replica o tridimensional no bidimensional e se tem um diptico.

           Em Alinhavo (agulhas modeladas), um caibro encontrado no entulho no centro de São Paulo, possilita que uma obra, seja uma homenagem. Segundo, Madre Mazzarello: “Cada ponto da agulha é um ato de amor a Deus”. São em pequenos gestos que encontramos o Divino. A Santa que já foi objeto de pesquisa e elaboração  de um conjunto escultórico desenvolvido pelo mesmo artista para as Filhas de Maria Auxiliadora, agora é homenageada pelo processo purificação para atingir  a santificação de sua comunidade. A agulha, um objeto tão pequeno, na exposição, impressiona por seu  gigantismo.

           De forma variada, interferindo, modificando ou simplesmente não fazendo nenhuma alteração, Gilberto Vançan, apresenta um conjunto de obras que são metáforas do nosso cotidiano repleto de leituras poéticas e estéticas de objetos perdidos que a partir do olhar do artista serão encontrados.