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Resenha do Cinéfilo- Setembro – Vidas secas

16, setembro, 2013

Vidas secas  (Brasil, 1963)

Direção: Nelson Pereira dos Santos

Elenco Principal: Átila Iório ( Fabiano), Genivaldo Lima, Gilvan Lima, Orlando Macedo ( soldado amarelo), Maria Ribeiro ( Sinhá Vitória), Jofre Soares (fazendeiro), Pedro Santos, Maria Rosa, José Leite, Antônio Soares.

Prêmios: Festival de Cannes 1964 (França) recebeu o Prêmio do OCIC e o prêmio dos cinemas de arte. Foi indicado à Palma de Ouro. Resenha de Cinema de Gênova 1965 (Itália) – Foi considerado o melhor filme daquele ano.

VIDAS SECAS Resenha do Cinéfilo  Setembro   Vidas secas

Transpor palavras de um livro para imagens em movimento não é uma tarefa fácil. Poucos conseguem fazer isso, combinando fidelidade ao texto original e apuro estético na concepção da obra final.

Em 1963 essa tarefa de poucos, foi realizada por Nelson Pereira dos Santos com “Vidas secas”, roteiro baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos. De acordo com os letreiros iniciais, as filmagens foram em Minador do NegrãoPalmeira dos Índios, sertão de Alagoas.

O cineasta: Nelson Pereira dos Santos é um dos grandes nomes do cinema brasileiro, pertencente à geração do Cinema Novo, cujo movimento é conhecido pelo lema “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”, criado no início da década de 1960. Neste filme, fica perceptível a influência marcante do neorrealismo italiano e o filme se tornou um dos mais conhecidos do movimento, que abordava problemas sociais do Brasil.

“Vidas secas” foi o único filme brasileiro a ser indicado pelo British Film Institute como uma das 360 obras fundamentais em uma cinemateca.

O livro/filme conta a história de uma família de retirantes nordestinos, composta por Fabiano, sua mulher Sinhá Vitória e seus dois filhos. Além destes, completam marginalmente a família, a lendária cachorra Baleia e um papagaio.

Após contínua e exaustiva caminhada pela área nordestina, encontram uma fazenda abandonada, a qual futuramente passará a ser a moradia temporária do grupo. Fabiano consegue um emprego de vaqueiro e a família se vê instalada nas mediações da fazenda. A região parece amaldiçoada, seria o Inferno? Muita pobreza, seca, fome, além de outros problemas agravam a vida de um homem, ignorante sem igual, analfabeto, humilde, ingênuo que no final das contas, a única coisa que quer é um meio digno para sobreviver em meio a terra do sol. Contexto típico de muitos nordestinos, história comum a milhões de brasileiros, que depois de muita procura e tentativas pelo sertão, partem para o sul em busca de uma vida melhor.

O ano em que a história da obra se passa, 1941 a 1942, ajuda a reforçar o apelo do filme sobre outros países. Enquanto os europeus sofriam terrivelmente, por causa da guerra, os brasileiros também sofriam terrivelmente, mas sem ter uma guerra; é apenas o cotidiano daquelas pessoas: sofrer.

Mas junto com todo o sofrimento, o filme trata, acima de tudo, da esperança. Começa com as personagens viajando, na esperança de melhores condições de vida, e termina nessa mesma esperança, mostrando que mesmo nesse cenário desolador, “esquecido por Deus”, é necessário sempre sonhar para poder seguir em frente.

O filme utiliza pouquíssimos diálogos, planos longos e lentos, focado na vida familiar e no convívio social. Fotografia em preto e branco, característica que nos deixa com mais contraste a caatinga nordestina, enaltecendo a violência do sol. O filme trata basicamente do sofrimento das pessoas, da miséria e da condição desumana em que vivem. Um detalhe importante para o entendimento do filme é uma analise semiótica sobre a cachorra Baleia, primeira personagem a aparecer no filme e de certo modo, a mais inteligente e humana da obra. Membro essencial da família, uma das únicas diversões aparentes dos meninos, Baleia é bastante discriminada, fica sempre com os restos de comidas, e se contenta com pouco. Ao final, muito magra e sem pelo tem um fim trágico, polêmico e muito triste.

O livroGraciliano Ramos começou a conceber o livro depois de escrever Baleia, inicialmente um conto publicado em jornal, que foi bem recebido.

O romance é narrado em terceira pessoa e como o autor não dá nenhuma localização temporal, podemos dizer que “Vidas secas” é uma obra atemporal, clássica, jamais envelhecerá. A escolha do foco narrativo em terceira pessoa é emblemática, uma vez que esse é o único livro em que Graciliano Ramos utilizou tal recurso. Trata-se, na verdade, de uma necessidade da narrativa, para que fosse mantida a verossimilhança da obra. Por causa da paupérrima articulação verbal das personagens, reflexo das adversidades naturais e sociais que as afligem, nenhum parece capacitado a assumir o posto de narrador.

O autor utilizou também o discurso indireto livre, forma híbrida em que as falas das personagens se mesclam ao discurso do narrador em terceira pessoa. Essa foi a solução para que a voz dos marginalizados pudesse participar da narração sem que tivessem de arcar com a responsabilidade de conduzir, de forma integral, a narrativa.

O romance apresenta uma estrutura narrativa que pode ser considerada aberta. Graciliano Ramos não é um narrador que conta apenas os fatos que acontecem. Ele dá voz às personagens para que cada um – inclusive os animais – se coloque enquanto indivíduo naquele meio adverso.

Daí se dizer que os animais são humanizados, já que colocam a sua visão com relação a sua condição “humana”. Em contrapartida, as personagens são animalizadas. Incapazes de articular seus pensamentos, podem ser facilmente comparadas a um papagaio, que só reproduz. Quando Sinhá Vitória mata o papagaio para que a família o comesse, eles estariam comendo, um semelhante, um igual.

A descrição se sobrepõe à narração e esta ao diálogo. As personagens pouco falam e, quando falam, geralmente têm seu discurso diluído no do narrador, num discurso indireto livre. Comunicam-se ainda menos. Não são raras às vezes em que há fala, mas a comunicação é nula. Isso acontece quando o Soldado Amarelo dá a Fabiano ordens que ele não entende (causando a prisão do mesmo por motivos que o próprio não compreende), quando Vitória diz a um dos seus filhos que “inferno” é uma palavra feia e ele ganha mais admiração pelo lexema por ser uma palavra bonita e ao mesmo tempo ruim. Compreender um ao outro é o que parece ser de menor importância, pois tudo que lhes é necessário é uma questão de sobrevivência acima de convivência.

Dividido em 13 capítulos independentes, que não apresentam ligação formal entre si, apenas temática, “Vidas secas” (1938) chegou a ser chamado por Rubem Braga de “romance desmontável”. Os títulos dos capítulos são objetivos, assim como é objetivo o próprio título da obra, que possibilita uma leitura no sentido próprio de complementar, sem deixar de ser antagônica. Assim, há capítulos intitulados como Mudança, Cadeia, Festa, O soldado amarelo, O mundo coberto de penas.

Graciliano, além de ser considerado, por grande parte da crítica, como o nosso melhor romancista moderno, é tido como o autor que levou ao limite o clima de tensão presente nas relações homem/meio natural, homem/meio social, capaz de transformar culturas. Foi maior que seus contemporâneos porque preferiu a síntese ao expositivo, o psicológico ao social. Nas palavras do crítico Antônio Candido, “achou a condição humana intangível na criatura mais embrutecida”. A aversão ao desleixo formal distanciou Graciliano de certa corrente modernista. Na técnica, o escritor firmou-se como herdeiro do realismo psicológico machadiano.

Por um lado, o cunho social de “Vidas secas” lhe garantiu afinidade com outros preceitos da Semana de Arte Moderna de 1922, que descrevia a realidade do país tornando protagonistas certos tipos brasileiros. Por outro lado, Graciliano encontrou insatisfação entre companheiros políticos. Teve inúmeros atritos com membros do Partido Comunista (ao qual, apesar disso, ele mesmo viria a se filiar em 1945), que viram como negativa a atitude “subserviente” de Fabiano ao ser preso pelo soldado amarelo, personagem – alegoria do Estado.

Mas Graciliano não se rendeu às críticas e manteve sua prosa a salvo do discurso pobre que servia de base à literatura engajada. “Vidas secas”, publicado em 1938, tem no “espaço” o elemento a estruturar a história, uma vez que é em função dele que as personagens são o que são e que toda a trama se desenrola. Espaço e indivíduo estão estritamente ligados – o espaço aparece como ambiente que condiciona a personagem e ao qual a personagem reage. A luta pela sobrevivência, os modos de ser, as condições precárias de existência nordestina, são contadas de forma coesa. O escritor não deixa as personagens serem vistas apenas como tipos representativos de um problema social, mas como pessoas reais, que são transformadas culturalmente por meio das agruras do Nordeste.

Graciliano quer contar uma história, não criar herois. Não se trata de gente melhor ou pior que qualquer outro sertanejo que por ali vivesse. Eles lutam contra o chão, o sol, contra a própria ignorância, a desonestidade dos ricos, contra a tristeza e, principalmente, contra a miséria. Fabiano nem sabe conversar. Quando tem que falar, se confunde, se atrapalha, tenta emular, sem sucesso, o discurso de um compadre esclarecido. Quando fala à mulher, é com interjeições monossilábicas. O estilo seco de Graciliano Ramos, que se expressa principalmente por meio do uso econômico dos adjetivos, parece transmitir a aridez do ambiente e seus efeitos sobre as pessoas que ali estão.

Graciliano Ramos – (1892-1953) nasceu em Quebrângulo, Alagoas. Estudou em Maceió, mas não cursou nenhuma faculdade. Após breve estada no Rio de Janeiro como revisor dos jornais “Correio da Manhã” e “A Tarde”, passou a fazer jornalismo e política, elegendo-se prefeito em 1927. Foi preso em 1936 sob acusação de comunista e nesta fase escreveu “Memórias do Cárcere”, um sério depoimento sobre a realidade brasileira. Depois do cárcere morou no Rio de Janeiro. Em 1945, integrou-se no Partido Comunista Brasileiro. Graciliano estreou em 1933 com “Caetés”, mas é “São Bernardo”, verdadeira obra prima da literatura brasileira. Depois vieram “Angústia” (1936) e “Vidas secas” (1938) inspirando-se em Machado de Assis.

“Vidas Secas” figura entre os livros mais importantes da literatura brasileira, tendo ganhado, em 1962, o prêmio da Fundação William Faylkner (EUA) como livro representativo da Literatura Brasileira Contemporânea. Também conquistou um enorme público, tendo vendido até então mais de um milhão e meio de exemplares, enquanto é leitura obrigatória em muitos vestibulares. O cineasta Nelson Pereira dos Santos realizou uma bem-sucedida versão homônima de Vidas Secas em 1963, reforçando aspectos atuais do país.

Enquanto “Vidas secas” é um ícone do cinema nacional, um filme indispensável para qualquer amante da sétima arte, uma sucessão de acontecimentos que consegue, de  forma única, tocar qualquer um que o assista, o livro é daqueles para ser lido e relido, para ser apreciado a cada frase. Nada ali está por acaso, e depois de 75 anos, o romance está ainda mais forte. Trata-se de um clássico da literatura. Vale a pena conferir!

Olga Arantes

“O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos.”
Graciliano Ramos


REFERÊNCIAS:

Ramos, Graciliano. Vidas secas. Ed.Record,2003 (publicado originalmente em 1938)
omundodoscinefilos.blogspot.com/…/passar-um-livro-para-as-telas-nao-e…
www.ligadosfm.com/2012/04/19-resenha-critica-vidas-secas.html
www.cineplayers.com/critica.php?id=978
graciliano.com.br/site/…/filme-vidas-secas-1963-nelson-pereira-dos-sant…
www.adorocinema.com › Filmes

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Sinopse do mês de Outubro – A invenção de Hugo Cabret

19, outubro, 2012

A Invenção de Hugo Cabret. (EUA, 2011)

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: John Logan, com base no livro de Brian Selznick.
Elenco: Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Emily Mortimer, Ray Winstone, Christopher Lee, Richard Griffiths, Frances de la Tour, Michael Stuhlbarg, Helen McCrory e Jude Law.                                                              Prêmios: indicado a 11 Oscar ( na 84ª cerimônia) ganhou  cinco prêmios nas categorias efeitos visuais, mixagem de som, edição de som, fotografia e direção de arte.

“A invenção de Hugo Cabret” traz a clara mensagem de que o tempo é implacável, mesmo para aqueles que fizeram história, e tiveram grande destaque no que realizaram. Mostra o quanto a fama é descartável, perecível e ingrata, e como acontecimentos da vida (no caso do filme, a guerra) podem fazer com que todo um árduo trabalho feito com dedicação e amor seja esquecido facilmente pelas pessoas.                           Baseado no livro de Brian Selznick, “A Invenção de Hugo Cabret” é uma obra prima que mostra muito o valor de todo tipo de filme que é feito e que à sua maneira, envolve o público falando de épocas e sonhos que fizeram dessa arte uma das mais adoradas.                                                                                                                         O roteiro de John Logan passa uma mensagem bonita sobre as produções cinematográficas de antigamente. A parceria entre o cineasta Martin Scorsese e o designer de produção Dante Ferretti é marcada por trabalhos cênicos estilizados e bem realizados, que mergulham o espectador no universo pretendido pelo diretor.

No filme a cidade é retratada em tom de fábula, com cores ricas e quentes e, parecendo iluminada a lamparinas a óleo. Um trabalho de design de produção

meticuloso e deslumbrante, rico em detalhes.

“A Invenção de Hugo Cabret”, nos minutos iniciais da película, mostra toda a bela ambientação com uma varredura panorâmica de uma Paris iluminada seguida de um passeio da câmera pela estação de trem, seus interiores escondidos e as engrenagens de seus relógios.

Feita a ambientação somos apresentados ao menino Hugo Cabret. Ele mora nas galerias ocultas da estação, sobrevive de pequenos furtos e passa boa parte do tempo tentando evitar as investidas do Inspetor do lugar e seu cão de guarda. Está ali desde que seu pai morreu em um incêndio, o que o obriga a viver com seu tio beberrão que cuida dos relógios do local. Tudo o que o pai lhe deixou foi um estranho “autômato”, um boneco mecanizado que tentavam consertar juntos.

Hugo, pelas frestas do relógio, como um projecionista enxerga um filme pela sua cabine, vê o flerte do guarda com a florista, os olhares dos idosos e seus cães,  órfãos perseguidos pela polícia – compreensivelmente, a Paris de Scorsese é a Cidade Luz mítica, dos apaixonados e dos pequenos delinquentes autodidatas.

Sempre fugindo do inspetor que controla a estação, Hugo acaba sendo envolvido em um mistério que abarca seu falecido pai e um comerciante, dono de uma loja de brinquedos. Com a ajuda de sua nova amiga Isabelle, irá tentar desvendar esse grande enigma, que passa e muito pela história da sétima arte.

Cinema é luz, e tudo reflete luz neste filme, e Scorsese deve ter escolhido o garoto Asa Butterfield para protagonizá-lo porque, com seus olhos azuis gigantes, o menino talvez seja capaz de absorver mais dessa luz do que qualquer pessoa.
Na busca obsessiva de engrenagens que farão o robô voltar a funcionar, Hugo se confronta com um homem velho e amargo que dirige uma loja de brinquedos. O velho tem uma neta, que leva Hugo a descobrir um componente importante para seu autômato. Daí em diante os dois jovens aventureiros acabam se deparando com um segredo há muito esquecido, que lança nova luz sobre o passado do avô da menina e os levará à história de George Méliès e o nascimento do próprio cinema.

Sendo contada do ponto de vista do garoto, o filme propositalmente adota um olhar inocente, doce, mas sofrido, sobre os acontecimentos que passam pela vida de Hugo, mostrando todas essas emoções de forma bastante intensa, como uma criança veria.

E é com esse olhar que Scorsese mostra todo o seu carinho e admiração pela sua profissão, e por aqueles que a ajudaram a se tornar o que ela é hoje. Além disso, o filme é, ao mesmo tempo, uma aula e uma homenagem ao cinema. Começando pelos irmãos Lumière e seu “show de mágica” com “A chegada do trem na estação” (1896) que apavorava o público, causando a ilusão de que o trem iria na direção da plateia, passando por um delicioso momento de “O Homem mosca” (1923), além de “O Garoto” (1921), “A General” (1927) e outros.

Fica claro como Scorsese respeita e admira esses filmes, por suas qualidades e importância. Ao mesmo tempo, mostra a necessidade de valorizar os grandes nomes do passado, e destacar o seu valor e sua importância para a arte como ela é hoje. Como na cena em que um admirador de Méliès vai à casa dele e diz à sua mulher como o seu marido havia sido importante para ele na sua infância, e vemos o olhar emocionado dela, apresentando sincera gratidão por um agradecimento cada vez mais raro em dias como aqueles, tantos anos depois dos seus momentos de glória.                                                                                                                        Tecnicamente o filme também é brilhante. Apresentando cenários bem desenvolvidos e ricos em detalhes, o filme tem uma primorosa direção de arte, que retrata bem a Paris da década de 30. A fotografia também se mostra competente trazendo um interessante paradoxo entre o tradicionalismo do início do cinema e a tecnologia do cinema atual.

Demonstrando completo domínio da nova linguagem, Scorsese utiliza o 3D não como um arroubo estético, mas como uma maneira de contar histórias. Com uma apresentação inicial completamente sem falas, o diretor passeia com sua câmera pelo belíssimo cenário principal, aproveitando cada detalhe do caprichado design de produção. Reparem, por exemplo, como o cineasta opta por filmar diversos planos em plongée, “diminuindo” assim seu protagonista, perdido em meio a cenários imensos. O diretor trabalha cada detalhe de seu filme, tendo criado vários cenários em tamanho real para afastar a sensação de muitos efeitos especiais. Mas, mesmo assim, o filme é recheado de efeitos e todos eles incrivelmente bem feitos e de tal maneira costurados, dentro do filme, que fica difícil dizer quando acaba a realidade e começa a mágica.
Aliás, “mágica” é mesmo a palavra de ordem nesse filme. Dos momentos iniciais em que a câmera faz enormes e longos travellings por cada mínimo detalhe da estação de trem até os minutos finais da trama.                                                                                  Quem não conhece Méliès (1861-1938) terá em Hugo Cabret, antes de mais nada, uma tocante introdução aos filmes do diretor de Viagem à Lua (1902). Enquanto os irmãos Lumière, criadores do cinematógrafo, filmavam banalidades do cotidiano em seus curtas, Méliès, veterano do teatro de variedades, levou para o cinema seus espetáculos de ilusionismo. Com seus truques de montagem e encenação, o francês foi pioneiro não só nos efeitos visuais como originou, com sua produção de mais de 500 filmes, toda a ideia do cinema como uma fábrica de sonhos.

Neste outubro de 2012, O Cine Clube de Lorena dedica suas atividades ao cinema. Ao lado de um Festival de cinema Amador (Gato Preto), uma semana de Cinema Criança, com sessões destinadas ao público infantil apresenta o filme A invenção de Hugo Cabret” para os estudantes de licenciatura e público interessado.   Nossa intenção é descobrir “os Hugos” perdidos numa grande estação de trem, encontrando na experiência de Martin Scorsese e nas projeções do Cine Clube, uma maneira de continuar com a mágica do cinema para as próximas gerações.                               E quem diria que 117 anos depois da primeira exibição de “A chegada do trem na estação”, a situação de um trem vindo em direção à plateia (desta vez com a ajuda do 3D e com a noção de espaço de Scorsese) ainda seria capaz de causar comoção em um público iludido momentaneamente, pelo poder da imagem em movimento.

REFERÊNCIAS:

www.omelete.uol.com.br/hugo-cabret/…/invencao-de-hugo-cabret-critica/

www.cineplayers.com/critica.php?id=2358

www.jb.com.br/programa/…/02/…/critica-a-invencao-de-hugo-cabret

www.veja.abril.com.br/blog/isabela…/critica-a-invencao-de-hugo-cabret/

www.cineclick.com.br/criticas/ficha/filme/a…de-hugo-cabret/…/2901

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Sinopse da Semana: Alice no País das Maravilhas

26, outubro, 2010

Alice no País das Maravilhas (EUA – 2010 )

Direção: Tim Burton

Gênero: Fantasia                                                                                                         Estúdio: Walt Disney Pictures

Roteiro: Linda Woolverton

Produção: Tim Burton, Joe Roth, Jennifer Todd, Suzanne Todd

Elenco : Anne Hathaway, Helena Bonham Carter e Crispin Glover.

Estes personagens carismáticos e fantasiosos que estão na memória de várias gerações.

A literatura e o cinema são linguagens diferentes. Signos, códigos e percepções são diversos. Ambas as linguagens são complexas e podem nos levar a muitos universos.                   Em alguns momentos, os dois universos, de Lewis Carroll e de Tim Burton, unem-se de maneira interessante.

Na adaptação, feita por Linda Woolverton, a maior mudança é a idade da protagonista, Alice. Agora aos 19 anos ela embarca em uma fantástica jornada para encontrar seu verdadeiro destino no reinado de terror da Rainha Copas.

A jovem Alice não vê a menor graça nas obrigações e no modo como deveria se comportar no mundo aristocrático em que vive e, não entende a razão de sonhar sempre os mesmos sonhos todas as noites, desde criança.

Alice no País das Maravilhas é a visão de Tim Burton, inspirada nos dois livros de Lewis Carroll, nos quais se baseia. Porém, não é um, nem outro. O filme conta uma terceira história. Tal qual no começo de tudo, o coelho leva Alice para a toca e o início do que ela acredita ser um sonho, do qual a qualquer minuto irá acordar. Porém, as personagens e as histórias de Carroll se condensam às novas amarrações do roteiro para dar vida a esta nova narrativa.

A Rainha Vermelha continua sendo uma carta insana do baralho, impiedosa e louca por cabeças cortadas. Os soldados fiéis da Rainha Branca são as mesmas peças do velho jogo de xadrez. E, apesar de nunca terem se encontrado na literatura, se enfrentarão na grande tela do cinema.
Alice dificilmente encontrará lá um ambiente idílico e propício para a fuga: seus melhores amigos são seres para lá de bizarros. Caberá a Burton humanizá-los, e essa é uma das melhores coisas do filme. Helena Boham Carter e o gato de Alice, Cheshire, são os maiores destaques. No caso do gato, é o melhor que o 3D trouxe ao filme. Tim Burton, desconfiado da nova tecnologia, não quis filmar com as famosas câmeras 3D . Fez tudo no tradicional e depois converteu o resultado final. Classificação:

Burton prefere os diferentes. Injeta neles uma carga de humanidade que os tira dos estereótipos. Neste Alice no País das Maravilhas, dá contornos impensáveis seja até mesmo para a imaculada Rainha Branca. Seus monstros têm coração, seus loucos, lucidez. Se a Rainha Vermelha é má é porque sofre de solidão e pelo fato de negar sua condição física. As outras personagens não têm esse tipo de problema – riem de si próprios e suas limitações.

Como já notou parte da crítica, de todos as personagens, justamente Alice é que teve o desenvolvimento menos satisfatório. Em pânico por ter de se casar, Alice foge e mais uma vez cai na toca do coelho. Durante sua estadia em Wonderland (ou Underland), vai aprender conhecer a si própria, adquirir auto-confiança e enfim poder voltar à vida real preparada para o que a espera. É decepcionante sim. O melhor do filme está na hipnótica direção de arte, na multidão de pequenos achados que tanto enriquecem seus filmes. O melhor de Tim Burton está nos detalhes.

Após ver o filme, fica ainda mais difícil separar a visão peculiar de mundo e estética do diretor, aliada ao uso correto de toda a tecnologia disponível, do espetáculo visual. Para o espectador, Alice no País das Maravilhas é uma experiência sensorial fantástica.

Tão importante quanto à própria protagonista é o papel do Chapeleiro Maluco (Johnny Depp). Fundamental na trama, ele é o primeiro a reconhecer que a garota de hoje é a mesma Alice de antes. Ele será seu companheiro nesta jornada e a ajudará a entender a dinâmica daquele estranho mundo e suas criaturas.
A opção por uma narrativa fundamentada na jornada do herói nos faz pensar em duas coisas: Alice é mais velha e está em um mundo em conflito, no qual o entendimento de sua essência aventureira é determinante para a redenção; além disso, quem nunca leu nenhum dos livros vai se divertir com uma grande aventura. Aí vem o segundo ponto: ao trilhar este caminho e ter êxito, o roteiro e a direção simplificaram a história e se perdeu justamente o caráter delicioso da obra de Lewis Carroll – a anarquia e o escárnio.

O filme é enxuto quanto as canções e poesias. O Chapeleiro, num momento de muita seriedade e perigo iminente, recita um trecho de Jaguadarte, mas seu jogo de palavras e termos, brilhantemente escrito pelo autor, em 1871, para a segunda aventura de Alice e considerado um dos maiores poemas nonsense da literatura, ficam inexplicados. Os trocadilhos e piadas também ficam reduzidos para o entendimento do todo.

As novidades dessa versão concentram-se no aspecto do formato, afinal, mesmo com roteiro diferente do livro, os elementos são os mesmos. Alice, as Rainhas – Branca e de Copas -, o Chapeleiro Maluco, o Coelho Branco e demais personagens do mundo maluco e tresloucado conhecido como País das Maravilhas.

A própria história busca sua maturidade. Alice não foge apenas das pressões de uma sociedade machista, mas corre em busca do passado idílico, no qual a presença do pai a confortava. Nesse mesmo passado existe a lembrança de um sonho maluco: o País das Maravilhas.

Precisamos crescer quando entramos na escola, precisamos amadurecer rápido demais, aprendemos a torcer cada vez mais pela maioridade e, aí, precisamos crescer e amadurecer novamente, afinal, os ciclos anteriores não foram suficientes ou serviram apenas àqueles momentos. Isso quando não resolvemos fazer tudo de novo aos 40 e em todas as outras crises da meia e da maior idade.

Respiramos, logo amadurecemos. É a condição humana. É a história de Alice no País das Maravilhas, livro que nasceu clássico pelas mãos de um matemático com o dom lingüístico em 1865.

Aprenda seu passado, aprimore o futuro. Mas nesse caso, os períodos voltam a se encontrar quando Alice despenca buraco abaixo. É o início de sua nova jornada, menos formativa que as anteriores, mais definitiva por seu momento pessoal. Toda pessoa boa é meio louca, diz o pai de Alice. Está certo. Imaginação e criatividade valem mais que qualquer convenção social quando se sonha com algo mais que uma vida trivial.

Tim Burton considera uma mistura de contos de fadas com história de terror, acontecendo de forma independente ao original da Lewis Carroll. Já Linda Woolverton, a roteirista, tem outra opinião: “é uma continuação; uma história revisionista, ou melhor, um exemplar do nonsense cinematográfico”, disse à revista Script. Essa dissonância criativa mesmo entre os criadores da obra reforça uma das maiores qualidades dos contos de fadas: pluralidade de interpretações.

A história de Alice nasceu como conto infantil, evoluiu para uma complexa provocação matemática e consolidou-se por sua capacidade semântica e criativa. Tudo para instigar as mentes juvenis da virada do século 19, quando o mundo ainda precisava ser explorado e a vida era difícil, mesmo para uma burguesia limitada por seus portões de aço ou mansões cercadas pela pobreza do proletário industrial.

As barreiras modernas são outras e o amadurecimento de Alice caminha na direção da independência – pessoal, sexual, comportamental. É a jovem atual e, no mundo virtual de seus sonhos, pode tudo. Muda de tamanho, de visual, de idéia, de postura e precisa matar um monstro por dia. Alice não é mais menininha e não há príncipe encantado vindo salvá-la, pelo contrário, só ela pode decidir o destino do País das Maravilhas.

Mas há conforto no nonsense lexical e comportamental do Chapeleiro Maluco. Muito mais amargurado e saudoso do que maluco, aliás. Um homem perdido no tempo, desprovido de função, numa eterna cerimônia sem propósito.

Por ser uma história seminal e extremamente influente, Alice requer cuidados em seus paralelismos. Não é ela quem se espelha no mundo atual, ao contrário, é nossa modernidade que encontra raízes nos dilemas da pequena sonhadora. Quase adulta na nova versão, enfrente dilemas tão atuais em 1865 quanto em 2010. Mudam-se os formatos e nomes, porém, o ser humano é o mesmo. Assim como suas mazelas.

Tim Burton coloca sua assinatura em Alice no País das Maravilhas, mas, dessa vez, ele se comporta como espectador, em vez de maestro. Permite que esse mundo se desenvolva e assiste de camarote, ao maior dos espetáculos: ver a nossa reação a essa espiadela num lugar onde nada é o que parece e tudo pode acontecer, contanto que você não perca a cabeça.

Helena Bonham Carter acaba roubando o filme sempre que surge como a Rainha Vermelha, concebendo a vilã como uma criatura mimada cuja crueldade serve apenas para ocultar sua terrível insegurança. Abusando de todos os animais do reino (os morcegos usados para carregar os lustres são um toque particularmente divertido), a Rainha consegue se tornar bem mais complexa que todos os seus parceiros de cena, sendo hábil também em provocar o riso e em sugerir traumas de infância que, resultantes de sua imensa cabeça, parecem ter plantado as sementes de sua tirania.

A qualidade da produção, os cenários computadorizados, os figurinos maravilhosos (reparem na quantidade de trocas de roupa de Alice) e o cuidado com os efeitos 3D ressaltam e fazem deste um programa bem divertido e que fará os adultos reviverem a imaginação – e o medo dos personagens – da época em que leram os livros de Lewis Carroll.

A trilha sonora instrumental do filme foi composta pelo Danny Elfman que já contribuiu diversas vezes com o diretor Tim Burton. Já a trilha cantada contou com a participação de diversos cantores e bandas, incluindo Robert Smith, Tokio Hotel, Avril Lavigne e All Time Low, 3OH!3. A música-tema do longa é a canção “Alice”, da cantora Avril Lavigne.

Tim Burton assume-se mais uma vez como um mestre no seu ofício de criar maravilhosos mundos. Alice no País das Maravilhas é um filme delicioso capaz de agradar a qualquer pessoa dos 8 aos 80 anos.

Referências:

http://www.cineplayers.com/critica.php?id=1865

http://cinema.cineclick.uol.com.br/criticas/ficha/filme/alice-no-pais-das-maravilhas-2010/id/2422

http://www.soshollywood.com.br/alice-critica/

http://cinemacomrapadura.com.br/filmes/3589/alice-no-pais-das-maravilhas-2010/

http://poppop.com.br/filmes/alice-no-pais-das-maravilhas-trailer-sinopse-estreia-em-2010/

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Resenha do Cinéfilo: MISS POTTER

7, março, 2009

Por Renato A. Souza

Nesta sexta-feira, 7 de março, tivemos a abertura do cineclube 2009 que neste ano completa os seus 45 anos de existência, prestando grandes contribuições a cultura de nossa região. Que venham mais 45 anos pela frente e que não deixemos de comemorar. Parabéns aos que fizeram e fazem o cineclube uma realidade. Em especial, reitero os meus parabéns a Olga Arantes que faz do cineclube um lugar agradabilíssimo por sua recepção calorosa e por todo seu cuidado nas escolhas e preparação de material sobre os filmes. A direção da Fatea na pessoa da irmã Olga que é apreciadora também da sétima arte e que abraçou esta questão cultural, tornando possível, nossas agradáveis projeções semanais.

No mês de março, onde os filmes giram em torno da homenagem a mulher, fomos presenteados nesta reabertura com o tranquilo e leve MISS POTTER, filme com uma belíssima fotografia, que retrata a vida da escritora inglesa Beatrix Potter (1866 – 1943) que se tornou um dos maiores sucessos editoriais de todos os tempos, como menciona o folheto informativo do filme distribuído e muito bem preparado pela Olga.

O filme se torna muito mais interessante quando o expectador transporta os acontecimentos para o seu devido lugar na escala da linha do tempo: década de 1900, permeada por uma sociedade aristocrática, que se guiava especificamente por padrões muito bem delineados, principalmente para as mulheres, que deveriam por obrigação, se preparar para cuidar de um pretendente escolhido pela família e dos filhos que viessem a tê-los. Um pai compreensivo e uma mãe extremamente conservadora e presa aos valores da época são os personagens que complementam a história.

Em meio a todo este cenário é que Beatrix Potter (interpretada por Renée Zellweger) se destaca, principalmente por suas convicções e estilo de vida nada convencional para a época: é solteira, avessa a casamentos escolhidos e deseja como profissão ser escritora. E é este último fato que a faz levar a frente seu trabalho, apresentando suas criações a editores. Mesmo sendo pouco provável a aceitação, pela estrutura da sociedade machista da época, a princípio, os editores aceitam publicar seus livros não pelo interesse no real valor do trabalho mas por pensar que iriam empurrar literalmente um encalhe e um projeto pouco provável de sucesso nas mãos de um iniciante editor membro da família (interpretado por Ewan McGregor), no qual eles não desejavam que se destacasse em sua chegada. Sorte de todos, pois este iniciante se tornou o primeiro amor de Beatrix e conseguiu levar o projeto a frente.

Tudo isto contrastava muito com os conceitos da sociedade daquela época e num esforço para afastar a autora de um casamento com seu editor, os pais da moça resolvem se retirar por um tempo no verão realizando um acordo que, se o sentimento entre os dois persistisse, na volta eles teriam a aprovação para o enlace. Neste meio tempo, o editor contrai uma doença e vem a falecer. O filme trata tudo isto com muita leveza, sem deixar de mostrar a força e convicção desta mulher tanto da alegria quanto na dor. Como li estes dias, é um filme onde a tristeza não chega a nos fazer chorar e onde as piadas não nos fazem gargalhar, mas são temperos leves que conduzem o filme de maneira muito inteligente e sólida. A interpretação de Renée Zellweger é espetacular e em minha opinião, grande responsável pelo que o filme se propôs.

Após este momento de dor da perda de seu amor, o caminho que ela vem a seguir continua sendo o que bate com suas convicções sobre a vida que gostaria de ter. É a sensibilidade trabalhando e afinando a convicção.
Beatrix é uma pessoa com uma sensibilidade elevada e como mostra o filme, cria seus personagens com tanta propriedade que é capaz de conversar com seus desenhos. Talvez esteja aí o segredo do sucesso da autora. No filme inclusive estas conversas são elucidadas através de uma leve animação, truque da computação gráfica para nos dar melhor idéia da visão da escritora.

O filme mostra que Beatrix Potter foi uma destas pessoas que sabem exatamente o que querem ser e são, independente do que outros possam vir a pensar e a julgar, independente dos riscos, independente de um enquadramento de um padrão de época, independente da segurança que uma vida medíocre possa trazer, independente do esforço que certas decisões possam gerar. Trazendo para os dias atuais conseguimos verificar que muitos descobrem o que querem ser e nunca serão, abdicando de ideais, em troca de maior aceitação social, segurança, status ou coisa parecida. Só por presenciar tal fato, o filme já vale a pena. Não entrarei em maiores detalhes do final do filme, pois isto é melhor apreciar assistindo a projeção. Porém não vá esperando um filme com grandes reviravoltas, com um final surpreendente. Não foi um filme construído com esta finalidade. Ele é surpreendente sim por ser uma narração suave e pelo modo que foi conduzido em sua totalidade.

Ver MISS POTTER é como tomar um bom chá, observando o final de uma maravilhosa tarde em frente a serra da Mantiqueira. Tudo muito leve. Na verdade, era este cenário que estava por trás do cineclube no dia da projeção. Faltou apenas o chá.

Author: Pedagogia Categories: Resenha do Cinéfilo Tags:

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