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Arquivo de março, 2009

Resenha do Cinéfilo: MISS POTTER

7, março, 2009

Por Renato A. Souza

Nesta sexta-feira, 7 de março, tivemos a abertura do cineclube 2009 que neste ano completa os seus 45 anos de existência, prestando grandes contribuições a cultura de nossa região. Que venham mais 45 anos pela frente e que não deixemos de comemorar. Parabéns aos que fizeram e fazem o cineclube uma realidade. Em especial, reitero os meus parabéns a Olga Arantes que faz do cineclube um lugar agradabilíssimo por sua recepção calorosa e por todo seu cuidado nas escolhas e preparação de material sobre os filmes. A direção da Fatea na pessoa da irmã Olga que é apreciadora também da sétima arte e que abraçou esta questão cultural, tornando possível, nossas agradáveis projeções semanais.

No mês de março, onde os filmes giram em torno da homenagem a mulher, fomos presenteados nesta reabertura com o tranquilo e leve MISS POTTER, filme com uma belíssima fotografia, que retrata a vida da escritora inglesa Beatrix Potter (1866 – 1943) que se tornou um dos maiores sucessos editoriais de todos os tempos, como menciona o folheto informativo do filme distribuído e muito bem preparado pela Olga.

O filme se torna muito mais interessante quando o expectador transporta os acontecimentos para o seu devido lugar na escala da linha do tempo: década de 1900, permeada por uma sociedade aristocrática, que se guiava especificamente por padrões muito bem delineados, principalmente para as mulheres, que deveriam por obrigação, se preparar para cuidar de um pretendente escolhido pela família e dos filhos que viessem a tê-los. Um pai compreensivo e uma mãe extremamente conservadora e presa aos valores da época são os personagens que complementam a história.

Em meio a todo este cenário é que Beatrix Potter (interpretada por Renée Zellweger) se destaca, principalmente por suas convicções e estilo de vida nada convencional para a época: é solteira, avessa a casamentos escolhidos e deseja como profissão ser escritora. E é este último fato que a faz levar a frente seu trabalho, apresentando suas criações a editores. Mesmo sendo pouco provável a aceitação, pela estrutura da sociedade machista da época, a princípio, os editores aceitam publicar seus livros não pelo interesse no real valor do trabalho mas por pensar que iriam empurrar literalmente um encalhe e um projeto pouco provável de sucesso nas mãos de um iniciante editor membro da família (interpretado por Ewan McGregor), no qual eles não desejavam que se destacasse em sua chegada. Sorte de todos, pois este iniciante se tornou o primeiro amor de Beatrix e conseguiu levar o projeto a frente.

Tudo isto contrastava muito com os conceitos da sociedade daquela época e num esforço para afastar a autora de um casamento com seu editor, os pais da moça resolvem se retirar por um tempo no verão realizando um acordo que, se o sentimento entre os dois persistisse, na volta eles teriam a aprovação para o enlace. Neste meio tempo, o editor contrai uma doença e vem a falecer. O filme trata tudo isto com muita leveza, sem deixar de mostrar a força e convicção desta mulher tanto da alegria quanto na dor. Como li estes dias, é um filme onde a tristeza não chega a nos fazer chorar e onde as piadas não nos fazem gargalhar, mas são temperos leves que conduzem o filme de maneira muito inteligente e sólida. A interpretação de Renée Zellweger é espetacular e em minha opinião, grande responsável pelo que o filme se propôs.

Após este momento de dor da perda de seu amor, o caminho que ela vem a seguir continua sendo o que bate com suas convicções sobre a vida que gostaria de ter. É a sensibilidade trabalhando e afinando a convicção.
Beatrix é uma pessoa com uma sensibilidade elevada e como mostra o filme, cria seus personagens com tanta propriedade que é capaz de conversar com seus desenhos. Talvez esteja aí o segredo do sucesso da autora. No filme inclusive estas conversas são elucidadas através de uma leve animação, truque da computação gráfica para nos dar melhor idéia da visão da escritora.

O filme mostra que Beatrix Potter foi uma destas pessoas que sabem exatamente o que querem ser e são, independente do que outros possam vir a pensar e a julgar, independente dos riscos, independente de um enquadramento de um padrão de época, independente da segurança que uma vida medíocre possa trazer, independente do esforço que certas decisões possam gerar. Trazendo para os dias atuais conseguimos verificar que muitos descobrem o que querem ser e nunca serão, abdicando de ideais, em troca de maior aceitação social, segurança, status ou coisa parecida. Só por presenciar tal fato, o filme já vale a pena. Não entrarei em maiores detalhes do final do filme, pois isto é melhor apreciar assistindo a projeção. Porém não vá esperando um filme com grandes reviravoltas, com um final surpreendente. Não foi um filme construído com esta finalidade. Ele é surpreendente sim por ser uma narração suave e pelo modo que foi conduzido em sua totalidade.

Ver MISS POTTER é como tomar um bom chá, observando o final de uma maravilhosa tarde em frente a serra da Mantiqueira. Tudo muito leve. Na verdade, era este cenário que estava por trás do cineclube no dia da projeção. Faltou apenas o chá.

Author: Pedagogia Categories: Resenha do Cinéfilo Tags:

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